Em maio de 2023 fui para um congresso em Dublin e minha melhor amiga americana me encontrou lá. Nos deparamos com a diferença das nossas vidas. Eu, brasileira, vivendo no Brasil, com uma rede de apoio significativa e um marido bem parceiro na vida. Ela, americana, separada, dois filhos e sem nenhuma rede de apoio. Além de viver a cultura americana de fazer quase tudo sozinha: faz obra, pinta e cuida da própria casa (com as próprias mãos), banca a casa e cuida dos filhos praticamente sozinha, toma conta de todas as questões da escola deles e ainda vivencia o medo constante das ameaças de massacre no subúrbio do Texas. Quando conversávamos sobre isso, ela falava que não dava espaço para ser feliz.
Admiro muito a força dela e sei que ela representa milhares de pessoas que vivenciam algo semelhante. Que lutam dia após dia. Apesar disso, isso não a faz mais mãe nem mais mulher do que ninguém, mas acaba tendo que ser menos ela. E isso faz falta.
Esse nosso encontro, nos trouxe boas reflexões. Para ela, ela percebeu que fazia tempo que não tinha tempo para sorrir. Para mim, me fez ser muito grata a minha rede de apoio, mas além disso, me fez rever o discurso sobre a leveza das coisas.
Existe uma pesquisa de Harvard que comprovou que as pessoas mais felizes não são aquelas que possuem mais dinheiro ou mais sucesso, mas aquelas que tem bons relacionamentos. No entanto, faltou o adendo de que para ter bons relacionamentos, geralmente precisa de um pouco de tempo livre. Ter bons relacionamentos não são só questão de boa vontade ou interesse, mas disposição, disponibilidade, energia.
Tenho sorte de ter rede de apoio, um trabalho que me permite bastante liberdade na agenda, uma casa confortável e sempre limpa, uma família para me acolher nos dias bons e nos difíceis, tempo para regar as amizades, pra cuidar de mim e me dar energia de sobra pra cuidar dos outros. Mas não posso fechar os olhos para tantas outras milhares de realidades que estão ao meu redor.
Não é fácil ser feliz nem leve em um corpo que não agrada, em um trabalho que massacra, em uma família que judia, em uma cultura que julga, que exclui, que aprisiona. Sejamos gratos quando temos tempo para nos percebermos felizes, mas junto a isso, podemos olhar e abraçar aqueles que precisam de uma mão. Assim, talvez, juntos, consigamos mais leveza.








