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Eu sou o tipo de pessoa intensa. Me entrego para tudo o que faço. Quando corro, corro maratona. Quando pesquiso, faço doutorado. Quando pari, foram dois partos normais sem analgesia. A intensidade não é intencional, nem auto-cobrança, muito menos qualquer tipo de competição, inclusive não sou nada competitiva. É algo natural. Quando percebo, já me joguei de corpo e alma.

Faço por mim e me orgulho de cada conquista. Mas devo admitir que adoraria “um tapinha” nas costas.

O meu doutorado iniciou em janeiro de 2020, em fevereiro engravidei e em março do mesmo ano o mundo parou diante da pandemia do covid-19. A maioria das pessoas precisaram adaptar seus trabalhos, ficar em casa. Assim como os outros, fiz isso, mas para os psicólogos, o caos reinou. Minha agenda, que já era lotada, transbordou. Era ansiedade e medo para todos os lados e eu precisava cuidar dos antigos e novos pacientes que iam surgindo. O doutorado estava a mil, na fase de projeto, recrutamento de paciente e mudança de curso, já que teve que mudar de presencial para inteiramente remoto. Nada na minha vida parou. Tudo só aumentou: barriga, consultório, tese. Em outubro nasceu minha filha e apesar de querer viver inteiramente a maternidade, voltei a atender com 28 dias de pós-parto, porque meus pacientes estavam muito necessitados de escuta (e eu necessitada de trabalho- uma fuga saudável da maternidade). Amamentei por 1 ano e meio, participando de diversas reuniões com a filha no peito. Vários choros que precisei escutar e cada vez que eu entrava no escritório para atender ou estudar. Muitas noites mal dormidas, agravadas com uma filha que teve terror noturno. Para piorar, não tinha como descansar no dia seguinte, porque as 5h eu já me levantava para ter um pouco da casa silenciosa e poder produzir antes de ser engolida pela minha agenda e aos pedidos por “tetê”. Apesar dos pesares, olheiras e uma dose cavalar de café, consegui. Finalizei o doutorado, já com a 2ª filha. Ganhei meu título. Aprendi. Cresci. Mas não recebi nenhum “tapinha nas costas” do meu orientador.

Não sei nem o que pensar sobre isso. Seria uma postura de pai rigoroso, que acredita que não era mais do que a minha obrigação? Ou apenas a correria do dia a dia que não permite uma pausa para um acolhimento, um olhar, um abraço, um “tapinha nas costas”? Ou quem sabe é o que se espera das mulheres: que dê conta de uma jornada dupla ou tripla? Não sei ao certo, mas na falta de palavras vindas dele, optei por registrar para sempre as palavras de uma das pessoas que estava na minha banca de doutorado, também mãe. Ela me parabenizou dizendo que fui uma guerreira e que nadei contra a maré, com duas crianças penduradas em mim e mesmo assim, consegui chegar até o final. Não nego, senti falta do “tapinha nas costas” do meu orientador, mas fui acolhida com esse oceano de amor. Uma mãe, entende outra mãe. Só diante dessa fala que eu parei para pensar que por 5 anos, estou navegando em meio a tempestade, mas agora ajustei as velas e posso nadar por águas calmas.

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